Por Sarah Cremonini
Lançada em 1953, a peça “A Falecida”, do escritor e jornalista Nelson Rodrigues, retrata a história de Zulmira, uma mulher que planeja o próprio funeral ao descobrir uma doença. Em turnê desde 2023, a montagem chegou à Pelotas na última terça (19), no Theatro Guarany, com Camila Morgado como a mulher à beira da morte.
De volta à cidade onde gravou a sua primeira produção audiovisual, a minisérie “A Casa das Sete Mulheres” (Rede Globo), Camila contou em entrevista que estava muito feliz em trazer consigo uma das maiores obras de Rodrigues para os palcos, pois sempre teve vontade de mergulhar na intensidade das personagens do autor. “Eu sempre quis montar Nelson, porque é um autor muito intenso, que tem personagens complexos, que sempre querem alcançar uma perfeição e nunca conseguem (…) o universo de Nelson Rodrigues é muito bom para quem trabalha com isso [atuação], porque a gente quer se colocar nessa situação, a gente quer entender aquele universo”, explica.
Para viver a protagonista falecida, a atriz recebeu o convite do diretor Sérgio Módena – responsável pela montagem atual – e um dos motivos que a fez aceitar a proposta foi a complexidade de Zulmira, uma mulher que encontra na morte a última chance de ser vista. “É uma personagem com muitas camadas, muitas temperaturas, é uma personagem que passa pelo humor, pela obsessão, pela vingança, raiva, inveja, é uma trajetória de uma heroína trágica”.
Desde os anos 1950, diversas atrizes deram vida à protagonista no teatro e no cinema. Uma das maiores referências de Zulmira é Fernanda Montenegro na adaptação cinematográfica da peça feita em 1965, com o diretor Leon Hirszman. Assim, ao longo das décadas, diversas abordagens sobre a falecida são criadas e apresentadas ao público, mas há um ponto em comum entre todas: o texto, que foi justamente o maior guia de Camila para montar a sua própria versão da falecida. Contado um pouco mais sobre o seu processo de criação de personagem, a atriz fala que a assertividade da escrita de Rodrigues é muito precisa e que para ela, se apegar ao que o autor diz nas páginas do roteiro é a sua principal fonte de montagem.
Além do desejo pela morte, a peça também fala sobre um tema que era muito presente no Brasil de 1953, mas que segue ainda muito vigente na sociedade atual: o apagamento feminino – um outro grande motivo para Morgado aceitar o papel. Apesar de estar cercada de pessoas – marido, família, conhecidos – , a protagonista da peça é uma mulher completamente ignorada e rejeitada por todos, fazendo com que ela sempre busque algo para poder se destacar entre os outros, mas nunca tem sucesso. Por isso, ao descobrir uma doença potencialmente grave, Zulmira começa a movimentar os últimos dias de sua vida para organizar o seu próprio funeral, baseado em outros que foram de grande impacto no Rio de Janeiro.
Ao falar sobre este tópico, Morgado destaca que achou a nova montagem da peça “muito pertinente”, não só para poder trazer essa temática e pontos de diálogo com o público como “uma metáfora muito linda para os dias de hoje, porque em 70 anos, a gente ainda atravessa o mesmo problema, que é esse machismo estrutural”, mas também para trazer Rodrigues novamente aos palcos brasileiros na íntegra de todo o seu texto e revisitar um dos autores que auxiliaram na moldagem cultural do país. “Nelson é um autor muito popular e muito erudito. Ele escrevia muito bem. É lindo pegar um texto dele e ler, e pra mim agora, poder falar essas palavras todos os dias. Como leitora, sempre achei ele grandioso, mas agora fazendo [como atriz] eu entendo de uma outra forma também. Entendo melhor a grandiosidade dele.”.

Outro tema que também persiste na peça é a rivalidade feminina. Em seus últimos momentos de vida, Zulmira recebe um recado de que ela deve tomar cuidado com uma mulher loira e, logo em seguida, presume que esta pessoa é a sua prima e vizinha Glorinha, que nunca aparece em cena, mas está sempre presente nas falas, no pensamento e nas comparações da protagonista. Ao comentar sobre esse detalhe curioso da história, Morgado acredita que a escolha de nunca mostrar quem é a prima da falecida é proposital para demonstrar a grande carga psicológica da personagem, que em todos os âmbitos da sua vida, estava sendo atormentada por algo, seja físico – como a sua doença – ou não.
Em relação ao público, a atriz sempre espera que os espectadores “tenham a catarse que o teatro proporciona”, mas que também possam reconhecer quem foi Nelson Rodrigues através de seu texto, visto que, ele é um dos maiores pilares cultural do país, especialmente no teatro. Mas, para além disso, por ser alguém com uma grande conexão com o Rio Grande do Sul, em especial Pelotas, Camila Morgado conta que é bom estar de volta ao local que sediou o início da sua carreira audiovisual. “Pelotas é um lugar que eu me sinto em casa. Isso me deixa feliz de poder estar em um lugar que você se sente bem, que gosta, que já conhece”, ela explica. Para o resto da turnê pela região sul do Brasil, a atriz espera que todos possam se identificar com o que está sendo representado no palco e que cada pessoa possa aproveitar a experiência única que é ir ao teatro.
A Falecida, de Nelson Rodrigues, dirigida por Sérgio Módena, protagonizada por Camila Morgado, também possui no elenco os atores, Alan Ribeiro, Claudio Gabriel, Stela Freitas, Gustavo Wabner, Alcemar Vieira e Thiago Marinho. O próximo espetáculo será em Novo Hamburgo, no dia 21 de novembro.









